quinta-feira, 8 de agosto de 2013

ORAÇÃO AO CORPO



Leia pela manhã ao acordar,

 a noite ao dormir

 e antes das refeições

Meu corpo

Vestimenta da minha alma

Personificação da minha essência

Sou a única responsável por ti


De mim brotarão os atos

Que a ti hão de afetar

Positiva ou negativamente

Enquanto estiveres ligado a mim


Se abandono pequenos prazeres

É pelo prazer maior da Vida

Que me foi concedida

Generosamente pela Natureza


Por isso te presto

Diariamente a minha homenagem

Cuidando de ti

Como cuido de mim


sábado, 8 de dezembro de 2012


HOMEMCIDADE           

Dagoberto Sant’Anna

Mergulha insano pelas vias atulhadas

entre as mecânicas almas

dos que passam.

Mais uma entre as equivocadas vidas,

perdidas numa cidade inútil e cruel

 

Confunde destinos e caminhos

e em meio a turba amorfa,

que baila sem rumo uma frenética dança,

carrega seu corpo vestido

de eternas idas e  voltas.

 

Traz carros, telefones e computadores,

colados a sua pele, como pele

 

Aspira o escaldante fumo do progresso

aos frios porões do seu peito

e da sua mente embotada

de drogaesperanças.

 

Corcel impávido, furioso dragão

Disparando lanças de fogo em todas as direções

Cresce a urbe, incontida

Galgando vãs alturas e desvãos

Medusa sedutora

A transformar em pedra

Olhares levianos

Que a degustam ou a consomem

Como um apaixonado estupro.

Oh! Cidade ódioamada!

 

O homem indefeso, impotente

ignora a imensa cidade-aranha

que lança seus toscos palpos

a insupeitáveis horizontes,

insaciável de terras e aguas,

de corpos, de almas

 

O homem impotente, indefeso

Mistura verdades e quimeras

No ôco dos bares, igrejas e estádios

Numa desmesurada ânsia de si

 

Sucumbe enfim nas noites mornas e mortas

sob as suas luzes tristes,

às  ácidas tonturas

dos seus doces sonhos.

 

 

 

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Quem é este comandante


Quem é esse comandante

Que da ponte vê o mar

Que domina com o olhar

Toda a adversidade

Quem é esse capitão

De gesto firme na meta

Que caminha em linha reta

Sob a forte tempestade



Quem no fragor da batalha
De peito aberto avança
Dá ventos a esperança
E semeia fogo no mar
Quem é este destemido
Que lança fora a mortalha
Ombreia em riste a metralha
E insiste no navegar



Quem é este marinheiro

De pele curtida ao sol

Da cor ocre do arrebol

Que anda à dança do mar

Quem este forte marujo

Que descuida a quarentena

Que entesa a buja e a mezena

E me ensina a bolinar



Quem por detrás da figura
Da couraça e da armadura
De um velho lobo do mar
De bussola anda a procura
Da perfeita singradura
Do porto de fundear
Quem oferece a amura
Para no cais aportar



Quem atrás do porte impávido

Traz à fogo, tatuado

No sol do peito, um dragão

Quem a bombordo comanda

E a sota-voga destranca

A escota do coração

Quem empunha a espadela

E faz da vela a canção



Quem por fim solta as adriças
Dos bons ventos, das derriças
Dos tesouros, das cobiças
Da rija mastreação
Quem do naufrágio revida
Quem fundeia, quem duvida
Da forte rebentação
Quem ata a linha da vida?

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Aforismos

ADOLESCENTE: Toda criatura que tem fogos de artifício dentro dela.


 
AUSÊNCIA: Uma falta que fica ali presente.


FOTOGRAFIA: Um pedaço de papel que guarda um pedaço de vida nele.


FILHO: Serzinho adorável e todo seu, que um dia cresce e passa a ser todo dele.

GELO: Aquilo que a gente sente na espinha quando o amor diz que vai embora.
ARTISTA: Espécie de gente que nunca vai deixar de ser criança.



LEALDADE: Qualidade de cachorro que nem todas as pessoas têm.


LÁGRIMA: Sumo que sai dos olhos quando se espreme um coração.

OUSADIA: Quando o coração diz para a coragem "vá" e a coragem vai mesmo.

terça-feira, 15 de março de 2011

Meu Livro de Poesias

Meu livro de poesias

Ganhou corajoso, a sala

Onde vadeia a família.

Saiu da estante onde restava

Estanque

Perfilado

Como tantos outros

Esquecido

Sério, impenetrável

Quiçá insosso.

Agora convive distraído

Entre o porta-retratos

E o tabuleiro de xadrez

Na mesa de centro.

Almeja concorrer, destemido

Com a última noticia

Ou com a última novela.

Certamente será lido...

Um dia será lido ...

Curiosa ou distraidamente,

será lido.

Mas,

Deseja mais :

Sonha com as ruas

Na poeira dos carros

No suor dos trabalhadores

Na paz dos bancos dos aposentados

No balançar preguiçoso

Do ultimo vagão

Do trem do subúrbio

Pensa um dia ser banal,

Comum, diário,

Inquestionável como as cédulas;

Impessoal ,

Como os bilhetes do metrô;

Urbano

Como já são os pardais.

Comum, tão comum,

Que seja trocado, doado

Vendido, ou até queimado.

Que seja esquecido e achado

Ou como quer o poeta,

até jogado pela janela.

Que fique pendurado,

Como os cordéis.

Chutado, a guisa de bola.

Colecionado,

Como os maços vazios dos cigarros.

Consultado, como os almanaques.

Escondido, como os “catecismos”.

Que tome sol,

Que tome chuva.

Que nada tome.

Sonha apenas estar presente

No meio de todos

Que todos tenham sobre si

Alguma idéia.

Que todos façam sobre si

Algum juízo.

Ser conhecido,

Ser comentado,

Ser criticado,

Ser elogiado,

Ou execrado, quem sabe ?

Quem sabe,

Algum intelectual

Nele perceba

Algum valor

E o leve

Para as academias

Para as bibliotecas

Para as escolas

Quem sabe, algum livreiro

Nele perceba

Outro valor

E o leve

Para as quermesses

Para as feiras

Para as livrarias

Quem sabe não tenha valor

Mas, não será

Por isso discriminado

Que seja considerado assim

Apenas assim

Como livro

Um objeto nobre

Privilégio de alguns

Pérola, relíquia

Diamante fino

Guardado a sete chaves

Que reste protegido

Como um sortilégio

Num puro relicário

Raro aparador

Nobre prateleira

Estante.

quarta-feira, 2 de março de 2011

O cachorro atropelado

Lá estava ele,

disforme

no meio da pista molhada.

Um monte de pêlos,

carnes e ossos,

indiferente

aos automóveis que passavam,

também aparentemente

indiferentes;



Cadê aquele Lulu,

Totó, Billy, Rex;



Cadê aquela Xuxa,

Shira, Lady, Pituca.



Agora estava ali,

anônimo,

sem medo dos carros,

da carrocinha;

Não tinha nome,

não tinha sexo,

não tinha carinho,

não tinha a alegria

da chegada do dono;



Um pneu passou voando

e lhe tirou do lugar

onde jazia imóvel:

uma pata escanchou para fora

outra para traz

lhe deformando a figura;

Um olho olhava fixo

para a realidade áspera do asfalto,

o outro mirava,

obliquo,

para o nada;

Uma orelha presa por baixo

da cabeça,

soltava a outra por cima,

que parecia atenta;

Agora,

o rabo acenava, mecânico,

movido pelo torvelinho

provocado pelas rodas

que passavam velozmente;

Seu pêlo ainda com vida,

deixava entretanto,

entrever uma mancha rosa

das suas entranhas;

Seu focinho apontava,

acusador,

para a guia da calçada

que lhe negara a vida;



Algumas lembranças,

alguma piedade,

muita revolta,

algumas surpresas,

outras exclamações,

uma ou outra pergunta,

poucos ais,

muitas indiferenças,

passavam céleres,

pelos lados,

por cima,

desviadas,

freadas,

cruzadas,

derrapadas,

sobre o inerte corpo,

que prendera outrora

a alma fiel e delicada

do doce cãozinho;



Ninguém o reclamara,

alguns o lamentaram,

muitos o condenaram,

outros o compreenderam,

então, poucos o assumiram

por dever;



Alguém o substituíra,

pois a vida

passa!

domingo, 5 de dezembro de 2010

QUE REVOLUÇÃO...?!!!

Sei disso não

Disse o meu coração

Quando perguntado de súbito

Pela tal Revolução

O cérebro disse : analiso!

E a partir deste aviso

Cessou todo o improviso

E também toda ilusão

As pernas, então sem raça,

Disseram: "Pra que te tenho... "

E mostraram todo o empenho

De cumprir esta ameaça


A vista toda se embaça

O sorriso perde a graça

Não sei nem o que se passa

Nessa tal Revolução!?

O pulmão com mal asmático

O fígado de coma hepático

Um rim falou todo enfático

Vou trancar a filtração!


O outro: não tranque não!

Deixe de ser linha-dura

Reveja sua postura

Perante toda a nação!

Então falou o intestino:

Que fado, que desatino!

Nem com óleo de ricino!

E recolheu-se à prisão


de ventre. Quedou-se inchado

O tubo grosso e o delgado.

O apêndice ameaçado

Prometeu inflamação

Em seu socorro a bexiga

Mostrando-se sua amiga

Querendo parar a briga

Propôs uma solução

Sem se mostrar muito afoita

Mas também sem retenção

Atrás da primeira moita

Apresentou micção

O sangue que corre em tudo

Artéria, veia, canudo

Continente ou conteúdo

Deu aumento de pressão


Sentindo-se “solitária”

“Uma simples operária”

“A última coronária”

Prometeu obstrução

Ouvindo tudo o ouvido

Não se sentiu deprimido

Com seu martelo e estribo

Auscultou a situação


Bancando amigo-da-onça

Passou então a responsa

De toda esta geringonça

Para a Reprodução

O testiculo, o útero, o ovário

O espermatozóide vário

Compôs com o óvulo o cenário

Do Dia da Criação


Matou então a charada

Toda esta embrulhada

Não tinha outra morada:

Senão Amor e Paixão