quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Licença Poética

Saudade tenho eu da idade ida

em cima à torre, a carpintar meu verso,

burilar a estrofe, ceder à medida,

domar a solfa em compasso reverso.

 
Hoje, em meio à exaustão da lida

procuro em mim o estro, tão disperso...

a verve seca, a emoção contida,

descontruidos num jogo perverso.

 
Quando no afã do achar-me fuja a rima

e me descubra a versejar sem metro

permita que este vate assim se exprima:

 
como da alma se extirpasse a estima

do rei, à força, se tomasse o cetro

ou da viola se roubasse a prima.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Existencialismo

Herdei do tempo a angústia

de quem vive à toa,

de quem vive à toda

e não se apega ao enredo,

que oscila impávido entre a glória e o medo,

que caminha trôpego entre a popa e a proa;

Da vida aproveitei o desalento

que mora na certeza entre os contrários

e existi momento por momento

na trama dialética dos cenários;

Se tive por bandeira a existência

aérea, fluida, mutante

e cultivei sob a pele a sua essência

fiz do momento, presente

de dádiva, o instante

Juntei então por fim os fragmentos

do que pude ser dia-após-dia

e se alguma amarra me serviu de alento,

dispensei-a incontinente, sem valia,

até que o existir me devolvesse à guia

e o real me libertasse o pensamento.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Fiat Lux





Uma primeira e inocente estrela disparou seu lume
contra a profundeza insólita do espaço,

 inaugurando a ilusão azul do céu.


 

Então, o Dia, exibiu vaidoso, sua aquarela

na paleta das retinas,

chamando em cores todas as alegrias.





 
Enquanto a Noite, espantada,

Recolheu-se medrosa aos seus escuros,

e apenas permitiu à Lua

clarear nostálgica

sôfregos amores.


domingo, 8 de agosto de 2010

CONFLITO

Deus lhe acompanhe !

Ouvia um eu,

menino,

mirrado,

quando saía pra rua

despreocupado,

à toa,

descrente;


Deus lhe acompanhe !

Ouvia um eu,

rapaz,

taludo,

quando saía pra rua

ateu,

ímpio,

rebelde,

desgovernado;


Um eu hoje,

homem,

aflito,

irrequieto,

temeroso,

maniqueísta,

repudio e almejo,

ao sair pra rua,

um Deus lhe acompanhe,

que nunca mais ouvi !

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

OS SAPATOS DOS MEUS FILHOS

Antes eram sandálias,

Inocentes, puídas,

erodidas no dedão ou no talo,

largadas,
libertas dentro dos muros,

sempre perdidas,

sempre achadas por mãos zelosas;

não tinham métodos,

não tinham modos,

apenas personalidade :

na cor, no tamanho, no cheiro,

no desprendimento com que eram abandonadas

ou descartadas

Crescidos,

Serão sempre filhos sob o mesmo teto.



agora são sapatos,

fechados, sisudos, escuros

agora são sandálias,

altas, elegantes, enfeitadas, plataformas,

agora também sapatilhas,

leves, descontraídas;

ainda largados,

em limites menos amplos,

às avessas dos donos;

comumente sobem escadas,

mimetizando os próprios,

proprietários :

em cada degrau um par,

gradativos,

insupeitàvelmente estafados,

surpreendentemente refeitos;

alguns com meias para fora,

como línguas,

parecem cansados :

degraus acima, recuperados dos fôlegos

exibem uma invejável saúde;

outros já tombados na batalha dos dedos,

parecem vencidos:

depois renascidos, entalcados,

recuperam, heróicos, suas utilidades;

às vezes suarentos, empoeirados, descadarçados,

por inúteis, são aposentados:

um dia,

imediatamente encerados, recompostos,

ressuscitam garbosos,

para alegria de todos;

há os molhados da chuva:

hoje parecem perdidos de lama,

logo refeitos, ao próximo sol,

apresentam insuspeitas performances;

há tantos outros ............ !

há os acomodados,

há os rebeldes,

há os que voltam de festas,

há os que voltam de férias,

há os que não voltam.
E há, com certeza, os que apenas foram sonhados, cobiçados,

mas que jamais existiram,

por não se adequarem às parcas mesadas.

Os sapatos dos meus filhos

têm vida, como vidas.



TODOS OS NEGÓCIOS (poema práxis)

Ócio.

Nego o ócio

quando me falam de negócio.

Mas nêgo, o ócio

é negócio!

Quando negocio, nêgo

nego o cio:

antes, negocio

com negociantes.

E se negaceio, nêga,

sei - o.

Se nêgo nega cio,

nêga nega seio

e ceia

e outros negócios.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

SABIÁS E BEM-TE-VIS

Meu vizinho tem um jasmineiro desconcertante

sempre em flor

onde brincam os colibris

e meu olhar;

Nos seus galhos vagueiam

sabiás e bem-te-vis,

voados do lado de cá,

libertos,

desconhecendo os limites,

transpondo os muros,

burlando as normas,

nossas;


Invadem, atravessam, misturam

irreverentes,

cortando espaços,

recortando posses,

confundindo mundos,

resgatando uniões,

                               idealizadas,

                      universalmente planejadas,

diariamente negadas.


Os sábios sabiás,

os alertas bem-te-vis,

como será que dividem os seus mundos?