quinta-feira, 7 de abril de 2011

Aforismos

ADOLESCENTE: Toda criatura que tem fogos de artifício dentro dela.


 
AUSÊNCIA: Uma falta que fica ali presente.


FOTOGRAFIA: Um pedaço de papel que guarda um pedaço de vida nele.


FILHO: Serzinho adorável e todo seu, que um dia cresce e passa a ser todo dele.

GELO: Aquilo que a gente sente na espinha quando o amor diz que vai embora.
ARTISTA: Espécie de gente que nunca vai deixar de ser criança.



LEALDADE: Qualidade de cachorro que nem todas as pessoas têm.


LÁGRIMA: Sumo que sai dos olhos quando se espreme um coração.

OUSADIA: Quando o coração diz para a coragem "vá" e a coragem vai mesmo.

terça-feira, 15 de março de 2011

Meu Livro de Poesias

Meu livro de poesias

Ganhou corajoso, a sala

Onde vadeia a família.

Saiu da estante onde restava

Estanque

Perfilado

Como tantos outros

Esquecido

Sério, impenetrável

Quiçá insosso.

Agora convive distraído

Entre o porta-retratos

E o tabuleiro de xadrez

Na mesa de centro.

Almeja concorrer, destemido

Com a última noticia

Ou com a última novela.

Certamente será lido...

Um dia será lido ...

Curiosa ou distraidamente,

será lido.

Mas,

Deseja mais :

Sonha com as ruas

Na poeira dos carros

No suor dos trabalhadores

Na paz dos bancos dos aposentados

No balançar preguiçoso

Do ultimo vagão

Do trem do subúrbio

Pensa um dia ser banal,

Comum, diário,

Inquestionável como as cédulas;

Impessoal ,

Como os bilhetes do metrô;

Urbano

Como já são os pardais.

Comum, tão comum,

Que seja trocado, doado

Vendido, ou até queimado.

Que seja esquecido e achado

Ou como quer o poeta,

até jogado pela janela.

Que fique pendurado,

Como os cordéis.

Chutado, a guisa de bola.

Colecionado,

Como os maços vazios dos cigarros.

Consultado, como os almanaques.

Escondido, como os “catecismos”.

Que tome sol,

Que tome chuva.

Que nada tome.

Sonha apenas estar presente

No meio de todos

Que todos tenham sobre si

Alguma idéia.

Que todos façam sobre si

Algum juízo.

Ser conhecido,

Ser comentado,

Ser criticado,

Ser elogiado,

Ou execrado, quem sabe ?

Quem sabe,

Algum intelectual

Nele perceba

Algum valor

E o leve

Para as academias

Para as bibliotecas

Para as escolas

Quem sabe, algum livreiro

Nele perceba

Outro valor

E o leve

Para as quermesses

Para as feiras

Para as livrarias

Quem sabe não tenha valor

Mas, não será

Por isso discriminado

Que seja considerado assim

Apenas assim

Como livro

Um objeto nobre

Privilégio de alguns

Pérola, relíquia

Diamante fino

Guardado a sete chaves

Que reste protegido

Como um sortilégio

Num puro relicário

Raro aparador

Nobre prateleira

Estante.

quarta-feira, 2 de março de 2011

O cachorro atropelado

Lá estava ele,

disforme

no meio da pista molhada.

Um monte de pêlos,

carnes e ossos,

indiferente

aos automóveis que passavam,

também aparentemente

indiferentes;



Cadê aquele Lulu,

Totó, Billy, Rex;



Cadê aquela Xuxa,

Shira, Lady, Pituca.



Agora estava ali,

anônimo,

sem medo dos carros,

da carrocinha;

Não tinha nome,

não tinha sexo,

não tinha carinho,

não tinha a alegria

da chegada do dono;



Um pneu passou voando

e lhe tirou do lugar

onde jazia imóvel:

uma pata escanchou para fora

outra para traz

lhe deformando a figura;

Um olho olhava fixo

para a realidade áspera do asfalto,

o outro mirava,

obliquo,

para o nada;

Uma orelha presa por baixo

da cabeça,

soltava a outra por cima,

que parecia atenta;

Agora,

o rabo acenava, mecânico,

movido pelo torvelinho

provocado pelas rodas

que passavam velozmente;

Seu pêlo ainda com vida,

deixava entretanto,

entrever uma mancha rosa

das suas entranhas;

Seu focinho apontava,

acusador,

para a guia da calçada

que lhe negara a vida;



Algumas lembranças,

alguma piedade,

muita revolta,

algumas surpresas,

outras exclamações,

uma ou outra pergunta,

poucos ais,

muitas indiferenças,

passavam céleres,

pelos lados,

por cima,

desviadas,

freadas,

cruzadas,

derrapadas,

sobre o inerte corpo,

que prendera outrora

a alma fiel e delicada

do doce cãozinho;



Ninguém o reclamara,

alguns o lamentaram,

muitos o condenaram,

outros o compreenderam,

então, poucos o assumiram

por dever;



Alguém o substituíra,

pois a vida

passa!

domingo, 5 de dezembro de 2010

QUE REVOLUÇÃO...?!!!

Sei disso não

Disse o meu coração

Quando perguntado de súbito

Pela tal Revolução

O cérebro disse : analiso!

E a partir deste aviso

Cessou todo o improviso

E também toda ilusão

As pernas, então sem raça,

Disseram: "Pra que te tenho... "

E mostraram todo o empenho

De cumprir esta ameaça


A vista toda se embaça

O sorriso perde a graça

Não sei nem o que se passa

Nessa tal Revolução!?

O pulmão com mal asmático

O fígado de coma hepático

Um rim falou todo enfático

Vou trancar a filtração!


O outro: não tranque não!

Deixe de ser linha-dura

Reveja sua postura

Perante toda a nação!

Então falou o intestino:

Que fado, que desatino!

Nem com óleo de ricino!

E recolheu-se à prisão


de ventre. Quedou-se inchado

O tubo grosso e o delgado.

O apêndice ameaçado

Prometeu inflamação

Em seu socorro a bexiga

Mostrando-se sua amiga

Querendo parar a briga

Propôs uma solução

Sem se mostrar muito afoita

Mas também sem retenção

Atrás da primeira moita

Apresentou micção

O sangue que corre em tudo

Artéria, veia, canudo

Continente ou conteúdo

Deu aumento de pressão


Sentindo-se “solitária”

“Uma simples operária”

“A última coronária”

Prometeu obstrução

Ouvindo tudo o ouvido

Não se sentiu deprimido

Com seu martelo e estribo

Auscultou a situação


Bancando amigo-da-onça

Passou então a responsa

De toda esta geringonça

Para a Reprodução

O testiculo, o útero, o ovário

O espermatozóide vário

Compôs com o óvulo o cenário

Do Dia da Criação


Matou então a charada

Toda esta embrulhada

Não tinha outra morada:

Senão Amor e Paixão

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Nova Geração Paralela

Ai que moçoilas bobas

que intervalam as tardes

a sonhar amores

entre os adesivos;


a adivinhar etéreos futuros

nas páginas coloridas dos almanaques;

a cruzar e descruzar as pernas

e os cabelos

no calor de um tempo congelado

entre gerações;

e a desperdiçar realidades

entre os finos dedos

de unhas finas

 

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Existencialismo

Herdei do tempo a angústia

de quem vive à toa,

de quem vive à toda

e não se apega ao enredo,

que oscila impávido entre a glória e o medo,

que caminha trôpego entre a popa e a proa;

Da vida aproveitei o desalento

que mora na certeza entre os contrários

e existi momento por momento

na trama dialética dos cenários;

Se tive por bandeira a existência

aérea, fluida, mutante

e cultivei sob a pele a sua essência

fiz do momento, presente

de dádiva, o instante

Juntei então por fim os fragmentos

do que pude ser dia-após-dia

e se alguma amarra me serviu de alento,

dispensei-a incontinente, sem valia,

até que o existir me devolvesse a guia

e o real me libertasse o pensamento.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Dose Tripla

Cogito
                Torquato Neto

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.


Traduzir-se
                      Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Todo Risco
                    Damário daCruz

A possibilidade de arriscar
É que nos faz homens
Vôo perfeito
no espaço que criamos
Ninguém decide
sobre os passos que evitamos
Certeza
de que não somos pássaros
e que voamos
Tristeza
de que não vamos
por medo dos caminhos